Valéria Mendes – Portal Uai
| Eduardo Almeida / RA Studio |
| Estrutura criada pela arquiteta Isabel Brant usa peças desmontáveis para facilitar o transporte |
Sem casa, sem documentos, sem as lembranças registradas em fotografias e com a identidade esfacelada pelas perdas, o trauma e o medo. Em Minas, no último período chuvoso – outubro de 2009 a abril de 2010 -, 2400 pessoas ficaram desabrigadas segundo levantamento da Defesa Civil do Estado. A ONU informa que 25 milhões de pessoas de 52 países vivem em abrigos temporários vítimas de conflitos armados ou desastres naturais. No senso comum brasileiro, nosso país é privilegiado pelo bom clima, ausência de terromoto, vulcão ou tsunami, sem se atentar, porém, que o período de chuvas castiga anualmente milhares de famílias com desabamentos ou enchentes. Em Minas, 20 morreram por causa do último aguaceiro.
“No Brasil a situação é mais dramática, pois as chuvas são previsíveis”, declara a arquiteta Isabel Brant, autora de um projeto premiado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) que procura minimizar o sofrimento das pessoas que perdem suas casas por causa dos temporais. Para amenizar as conseqüências de um desastre, o atendimento emergencial é imprescindível e uma moradia adequada – mesmo que temporária – é um dos critérios de qualidade desse serviço. O major Edilan Arruda de Abreu, diretor de Comunicação Social da Defesa Civil de MG, afirma que as famílias que perderam as suas casas no último período chuvoso já deixaram os abrigos, geralmente improvisados em escolas, igrejas ou galpões.
Isabel explica que um local inadequado pode aumentar os danos psicológicos das vítimas. “As pessoas são colocadas em lugares insalubres, as famílias ficam muito próximas umas das outras e, não raro, passam muito tempo nesses locais, mais do que o previsto pela ONU para abrigos temporários”. A Habitação Temporária Desmontável é a alternativa que a arquiteta propõe diante dessa deficiência. As casas são formadas por peças modulares de PVC que podem ser montadas em função da necessidade. O objetivo é criar um sistema construtivo desmontável, leve e que pode ser reaproveitado em outra época do ano em campanhas de vacinação, por exemplo.
| Isabel Brant/Divulgação |
| Moradia foi planejada para ajudar temporariamente famílias que perderam tudo em desastres naturais, como enchentes e terremotos |
O projeto foi pensado para propiciar praticidade ao processo de construção e o atendimento funcionaria mais ou menos assim: a Defesa Civil passaria a ter um sistema de habitação temporária armazenado. Como as peças são leves, poderiam ser transportadas de caminhão. Para se ter uma ideia, uma habitação dessas para uma família de cinco pessoas pesa 1870 quilos com mobiliário incluído – estante, bancos, mesa e colchões infláveis. Escolher um terreno o mais próximo possível do local onde os desabrigados moravam é importante por várias razões. “Manter os laços econômicos e sociais”, enumera Isabel, além de as próprias pessoas poderem ajudar na reconstrução das casas. Com a instrução de técnicos, a população montaria as moradias. Uma outra vantagem do projeto das casas em PVC é a fácil adaptabilidade geográfica.
As casas de PVC podem ser de qualquer tamanho, mas não podem ser de dois andares. As áreas molhadas – cozinhas e banheiros – foram pensadas para ser estruturas independentes e coletivas porque, apesar de serem feitas com o mesmo sistema, possuem peças a mais para a parte hidráulica. “Ter menos peças passando dentro da casa otimiza o espaço e facilita a limpeza”, afirma a arquiteta. Isabel Brant garante o conforto ambiental dessas habitações. “As janelas em paredes opostas permitem a ventilação cruzada. A cobertura é feita com lonas opacas que não deixam o sol atravessar. Por outro lado, na parte de baixo, lonas translúcidas garantem a iluminação”. Tudo isso alivia o calor. A luz para noite é em tecnologia LED, sem fios e mais econômica. A especialista explica também que o PVC é um material autoextinguível, ou seja, não propaga a chama. “As famílias teriam privacidade e segurança”, finaliza.
A principal dificuldade para realizar o projeto – que foi idealizado em cinco meses – foi encontrar exemplos na arquitetura móvel. “É uma área pouco explorada e fiquei um pouco limitada”, conta Isabel. Ela usou, então, como referência os hospitais de campanha do Exército, os circos e os barcos. “Eu precisava de um sistema em que o núcleo familiar se mantivesse fechado, as pessoas tivessem privacidade e pudessem manter os laços afetivos”, completa.
CUSTO
O sistema ainda não foi adotado por nenhuma administração pública, pois o orçamento do projeto não foi concluído. Isabel Brant garante que as casas desmontáveis têm viabilidade econômica, especialmente quando produzidas em larga escala. “A grande quantidade de placas de PVC necessárias para montar as moradias reduziram o preço da unidade”, esclarece. O próximo passo é patentear a ideia. “Meu plano é conseguir uma verba mínima para a fabricação do protótipo e depois entrar em contato com a Defesa Civil e políticos para viabilizar o emprego desse sistema para a população brasileira”, finaliza.
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